Miguel Arroyo afirma que o
padrão cognitivo e pedagógico tem operado como padrão de classificação social,
étnica, racial, de gênero, de hierarquizações e bipolaridades dos coletivos
humanos. Nesta lógica estabelece-se uma dicotomia entre os segregados do poder
e da cultura e os civilizados, detentores do poder. A fala de Arroyo é provocativa
no sentido de que sempre pensamos a escola como uma ponte, uma tábua de
salvação ou um meio confiável de mudança da condição social. Segundo Arroyo:
“A
visão dos Outros como coletivos à margem tem sido cara à pedagogia e às
políticas sócio-educativas. A empreitada civilizatória, a escola e até as
pedagogias libertadoras carregam essa identidade: oferecer percursos, passagens
para sair da ignorância, da incultura, da tradição pré-política, da pobreza
para a civilização, a cultura, a consciência política, o progresso, a ascensão
social... Uma imagem incrustada em nossa cultura política, pedagógica, civilizatória
dos marginais.”
Talvez, por isso a avaliação
escolar esteja tão ligada ao mérito do esforço pessoal e uma trajetória escolar
bem sucedida se traduza na conquista individual de uma posição social
privilegiada condizente com a mais pura lógica capitalista, abandonando a condição
marginal e desfavorecida.
A mudança do coletivo é
incompatível com os moldes da escola atual porque estruturalmente ela não
oferece espaço à construção de uma consciência social que mobilize e empodere
as comunidades na busca de visibilidade as suas necessidades e ao descaso com
as condições subumanas a que estão submetidos. Boaventura de Sousa Santos
(2009) aponta polarizações mais radicais para entendermos a conformação dos
desfavorecidos:
“ O
pensamento moderno (poderíamos incluir a moderna pedagogia) opera em um sistema
de distinções visíveis e invisíveis estabelecidas através de linhas radicais
que dividem a realidade em dois universos distintos, irreconciliáveis: o
universo “deste lado da linha” e o universo “do outro lado da linha”.
A escola pode ter um papel,
não de ponte entre os desfavorecidos e os privilegiados, mas de local afirmação
identitária dessas comunidades através da valorização de suas produções culturais.
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