quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

TÁBUA DE SALVAÇÃO

Miguel Arroyo afirma que o padrão cognitivo e pedagógico tem operado como padrão de classificação social, étnica, racial, de gênero, de hierarquizações e bipolaridades dos coletivos humanos. Nesta lógica estabelece-se uma dicotomia entre os segregados do poder e da cultura e os civilizados, detentores do poder. A fala de Arroyo é provocativa no sentido de que sempre pensamos a escola como uma ponte, uma tábua de salvação ou um meio confiável de mudança da condição social. Segundo Arroyo:

“A visão dos Outros como coletivos à margem tem sido cara à pedagogia e às políticas sócio-educativas. A empreitada civilizatória, a escola e até as pedagogias libertadoras carregam essa identidade: oferecer percursos, passagens para sair da ignorância, da incultura, da tradição pré-política, da pobreza para a civilização, a cultura, a consciência política, o progresso, a ascensão social... Uma imagem incrustada em nossa cultura política, pedagógica, civilizatória dos marginais.”

Talvez, por isso a avaliação escolar esteja tão ligada ao mérito do esforço pessoal e uma trajetória escolar bem sucedida se traduza na conquista individual de uma posição social privilegiada condizente com a mais pura  lógica capitalista, abandonando a condição marginal e desfavorecida.
A mudança do coletivo é incompatível com os moldes da escola atual porque estruturalmente ela não oferece espaço à construção de uma consciência social que mobilize e empodere as comunidades na busca de visibilidade as suas necessidades e ao descaso com as condições subumanas a que estão submetidos. Boaventura de Sousa Santos (2009) aponta polarizações mais radicais para entendermos a conformação dos desfavorecidos:
“ O pensamento moderno (poderíamos incluir a moderna pedagogia) opera em um sistema de distinções visíveis e invisíveis estabelecidas através de linhas radicais que dividem a realidade em dois universos distintos, irreconciliáveis: o universo “deste lado da linha” e o universo “do outro lado da linha”.

A escola pode ter um papel, não de ponte entre os desfavorecidos e os privilegiados, mas de local afirmação identitária dessas comunidades através da valorização de suas  produções culturais.


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