terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Novas Gerações x Preconceito Racial

O artigo "A diferença étnico-racial em livros brasileiros para crianças: análise de três tendências contemporâneas" investiga as diferentes obras literárias produzidas para o público infantil e demonstra que a questão racial é tratada geralmente de  três formas diferentes nos enredos:  problematizando o preconceito,  introduzindo uma pensonagem negra como protagonista de uma história aleatória ou exaltando a diversidade étnica brasileira. A conclusão é que  em alguns livros ainda se mantém uma visão conservadora e preconceituosa, entretanto, essa literatura infantil tem sido uma aliada na discussão das diferenças étnico-raciais, introduzindo o ensino da história e cultura afro-brasileira como obriga a lei  A lei 10.639, diluída no currículo e não apenas em datas pré-estabelecidas. As mudanças de comportamento ocorrem de forma lenta e muitas vezes são necessárias várias gerações e um investimento em educação para que se obtenha os resultados desejados. Lançar luz ao problema é um primeiro passo para transformação social, ninguém nasce preconceituoso, a sociedade nos corrompe, por isso é importante tratar das diferenças na escola e fomentar a reflexão a cerca da formação étnica e cultural do nosso povo.
A reportagem veiculada pelo Jornal do Almoço, no Dia da Consciência Negra neste ano, demonstrou a importância da introdução da questão racial já na infância. Enquanto a maior parte dos adultos negaram ser preconceituosos e, até mesmo, um entrevistado insultou uma mulher negra durante a entrevista, um jovem destacou-se pela sua sinceridade,  declarando-se racista, por ser um produto da nossa sociedade. Ele esclareceu sua opinião com embasamento histórico e considerou a possibilidade e o desejo de mudança. Demonstrou responsabilidade social, sendo, então, elogiado pelo repórter Emanuel Soares, que é negro. Talvez pareça contraditório uma vítima de preconceito aprovar uma confissão como esta, mas a atitude do rapaz aponta para mudanças nas novas gerações, que estão mais abertas a reconhecerem seus defeitos e a retificá-los, evidencia uma coragem para admitir sentimentos enraizados na nossa cultura, o que pode ser o estopim para as mudanças sociais.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Infância e Violência

Acompanhei uma reportagem sobre as impressões das crianças  a respeito dos atentados terroristas na França, medo e  insegurança são os sentimentos que se sobressaíram nos depoimentos, embora a maioria não entenda a dimensão do ocorrido no país, sabem que de alguma forma estão em perigo, existe um risco que adivinham, que presentem. Como explicar às crianças tanta violência, o que fica no imaginário delas? Será que irão crescer alimentando esse ódio irracional?
 O sociólogo Zigmunt Bauman diz que estamos vivendo uma era pós-moderna, cuja característica é a fluidez das instituições e dos valores, acordamos do sonho da modernidade para o caos. Como podemos proteger as crianças deste caos, desta incerteza? Que adulto se tornarão neste mundo capitalista, que semeia ódio e intolerância entre os povos, em nome do lucro?
Dizem que da crise nascem as grandes ideias, será que podemos esperar que do caos surjam as soluções, os alicerces de um mundo mais justo e igualitário? Quando escuto as crianças, me encho de esperança que haja uma solução pacífica para tanta desavença e fico imaginando em que momento da nossa existência perdemos a ingenuidade e a pureza e nos tornamos capazes de matar e morrer em nome da intolerância, da xenofobia e do poder.

Manifesto

Este poema é uma releitura do poema “Operário em Construção” de Vinícius de Moraes
ESCOLA EM CONSTRUÇÃO
                      Carmem Hermann
Era ela que iluminava mentes
Onde antes só havia escuridão
Com um livro sem verbetes
E mestres a ditar a lição
Com o tempo do aluno
Ocupado à exaustão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo,
Que cada aluno com o tempo
Transformava-se em sua expressão
Nem tampouco sabia
Que cada matéria que proferia
Nada mais era que pura doutrinação.

De fato, como podia
Uma escola em construção
Compreender que aprender direitos humanos
Vale tanto quanto aprender multiplicação?
Posto que na sua concepção
Cidadania era política
Nada tinha a ver com educação
Quanto aos números, desde a Grécia Antiga
Eram sinônimos de qualificação.

E assim a escola cumpria
Seu papel na dominação
A legar somente: geografia, física e religião.
E no imaginário popular ser lugar que trancafia
Exigindo atenção para mesma monotonia
Ocupando os alunos, com trabalho e distração
Pois pensar é perigoso, é semente da revolução.

Em sua metodologia
A cultura popular reprimia
Numa instituição exaurida,
Que só a uma classe servia.
Na sua alienação, na realidade não percebia
Que escola não é fábrica, escola não é prisão
Escola não discrimina, não promove exclusão
Professor não é sacerdote, ensinar não é missão.

A sociedade desconhecia
O poder que da escola era emanado.
Pois o Estado faz a escola
E a sociedade que faz o Estado.
De forma que a mudança
De cada um dependia
E se todos assim pensassem
A escola evoluiria.
O que se quer da escola?
Simplesmente libertação.
Que provoque, que desafie. Que incentive a construção.
E assim a escola
Que só ensinava obediência, tomou-se de consciência
De sua verdadeira missão.

E daqueles muros erguidos
Para trabalhadores forjar
Uma voz se elevou
Cansada de se calar
A voz de toda opressão
A voz de todos os mestres
A voz de cada menino
A voz da libertação
A voz da massa oprimida:
Comunidade, cidade, nação.
E foi assim que se transformou
Em escola construída
A escola em construção.














Transferência e Contratransferência

Analisando as relações professor-aluno podemos observar facilmente estes mecanismos de defesa, observo as crianças  da educação infantil e dos primeiros anos do ensino fundamental e percebo a verdadeira adoração que os pequenos têm pelas professoras e esta relação afetuosa se reflete na aprendizagem, é uma transferência positiva. Nos alunos da área também é possível encontrar este sentimento em relação aos professores, na minha escola as crianças são bastante carentes, não só de coisas materiais, mas de afeto mesmo, acho que por esse motivo se apegam tanto a alguns professores. Entretanto, infelizmente também é possível observar muitos conflitos causados também por transferência, só que negativa. Adolescentes normalmente são opositores e quando se deparam com professores mais autoritários podem desenvolver sentimentos hostis em relação a eles, Muitas vezes estes sentimentos são inconscientes, mas podem provocar no professor o que Freud chamou de contratransferência, o professor esquece, muitas vezes, que é o adulto nesta relação e embarca numa disputa com o aluno. É preciso que os professores estejam atentos para não reagirem de forma impensada às provocações dos estudantes, trabalhar com adolescentes requer paciência e controle emocional. O professor precisa aprender a canalizar a energia dos alunos para a aprendizagem e evitar conflitos desnecessários. 

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Entre os Muros da Escola


"Entre os Muros da Escola", dirigido por Laurent Cantet, retrata os conflitos e desafios de uma instituição pública de ensino parisiense frequentada majoritariamente por imigrantes. Evidencia, assim, as contradições do modelo tradicional de ensino que desconsidera a história e a cultura dos alunos. A realidade apresentada não difere da nossa. As escolas brasileiras também são plurais e diversas e contemplam a mesma forma decadente de ensino.
Os conflitos retratados pelo filme ocorrem pelos alunos indignarem-se com a imposição da língua francesa, ministrada por François, e questionam o modo inadequado de avaliação que desconsidera as suas expressões verbais individuais e o contexto no qual se inserem. Podemos claramente aproximar esse dilema com a prática recorrente das nossas escolas em impor temas, conteúdos e atividades vistos como irrelevantes pelos alunos por serem alheios à sua realidade ou ao seus interesses.
Permite, portanto, pensarmos se há uma maneira justa de receber nossos alunos, integrando-os como parte importante na elaboração do currículo. Professores, em geral, aplicam a mesma metodologia para diferentes turmas sem considerar os alunos protagonistas do processo de aprendizagem. Possibilitar que cada estudante agregue, compartilhe e reflita sobre seus valores e crenças e de seus colegas estabelece um fluxo de informações que contribui na construção de uma abordagem específica e especializada pelo docente e talvez seja essencial na constituição de um ambiente escolar mais democrático. 

Por que as crianças chegam ao terceiro ano sem saber ler?

Na psicologia aprendemos que as crianças chegam à escola na fase descrita pelo psicanalista Sigmund Freud como fase de latência, ou seja, as crianças sublimam a energia sexual e a canalizam para o desenvolvimento intelectual, adoram jogos, são curiosos e observadores, principalmente em relação à natureza. Então se as crianças desejam aprender e cognitivamente estão aptas, porque não aprendem?

Descobri que a resposta é mais complexa do que suspeitava. Os meninos e meninas que chegam à escola trazem, além das mochilas, uma história de vida que muitas vezes é de violência, negligência e abandono. Estas crianças geralmente têm dificuldade de se alfabetizar. Na disciplina de alfabetização li que os fatores socieconômicos interferem na aprendizagem, porém não da forma que eu pensava. Não é porque tem desnutrição, porque sofrem maus tratos ou abusos, que as crianças não aprendem, o fator é econômico, mas está ligado à falta de oportunidade de aprender em casa e na pré-escola, dos zero aos seis anos. As crianças mais pobres não tem acesso a portadores de textos diversos, não tem acesso a cultura e muitas vezes os pais são analfabetos. Enquanto as crianças da classe média e da classe alta iniciam sua alfabetização muito cedo e já chegam alfabetizadas no primeiro ano, as crianças das classes sociais mais baixas chegam a escola com defasagem de 5 anos em relação a elas. O segundo fator tem também fundo econômico, pois alerta para falta de material necessário nas escolas e a falta de foco dos professores nas atividades de alfabetização. Muitas vezes a escola não tem uma sala de aula adequada com espaço ideal para se criar um ambiente alfabetizador, recursos como jornal do dia, computador e impressora estão longe da nossa realidade. Os jogos de alfabetização são escassos e há muitas crianças na sala. Mas, ainda assim, a maioria das crianças aprendem a ler e a escrever, enquanto algumas não conseguem. Esta é uma questão que inquieta, porque a escola não dá conta de ensinar essas crianças? Será por falta de metodologia e estímulos adequados? Sem uma rede de assistência com profissionais especializados, os motivos pelos quais estas crianças não aprendem ficam nos assombrando e o que resta é conviver com o sentimento de fracasso.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Bullying na Escola

Mariângela Momo destaca a reformulação da infância e da juventude provocada pela mídia e pela cultura consumista em seu artigo “Mídia e Consumo na Produção da Infância Pós-moderna”. Propõe que tudo é objeto de desejo, transformando, assim, crianças em consumidores potenciais que pertencem ao modo de produção capitalista e, para que sejam aceitas e sintam-se identificadas com o grupo a qual pertencem, precisam estar sempre adquirindo e aderindo às novidades comerciais. A mídia é colocada pela autora como agente da formação desta cultura comum, deste modo de pensar e comportar-se.
O foco do artigo permite uma reflexão pertinente sobre o papel da escola nesta sociedade dita pós-moderna. Afinal o bullying pode ser considerado uma consequência dos valores consumistas manifestada no ambiente escolar. Indivíduos que não pertencem ao “padrão” de consumo ou, até mesmo, de beleza estipulados pela mídia são excluídos ou sofrem com agressão física, psicológica. Por isso, dentro da escola é primordial aprendizagem de virtudes como tolerância, respeito, e empatia entre colegas. O desenvolvimento de atividades inclusivas e a retaliação às ações discriminatórias são medidas essenciais para desconstruir preconceitos e atribuir relevância a valores mais cidadãos. A lei do Programa de Combate à Intimidação sancionada este ano pela presidente Dilma Rousseff e que entrará em vigor em Março de 2016 é uma medida relevante para reforçar a importância de prevenir este tipo de agressão.



segunda-feira, 2 de novembro de 2015


Um dia desses uma amiga queixava-se da dificuldade de encontrar roupas e calçados adequados a faixa etária da filha de 11 anos, pois as blusas deixavam ombros e barriga a mostra, as saias e vestidos eram exageradamente curtas e os sapatos, botas e sandálias todas com saltos altos, ou seja,  cópias do vestuário adulto diferenciada apenas por estampas de personagens admirados pelas crianças que pressionam os pais para que comprem. Este comentário veio de encontro ao texto "Erotização dos Corpos Infantis na Sociedade de Consumo", proposta de leitura da disciplina "Infâncias de 0 a 10".
A sociedade está estimulando o ingresso das crianças na vida adulta, cada vez mais cedo, queimando etapas importantes do desenvolvimento infantil que contribuem positivamente para formação de sua personalidade. O forte apelo da mídia exerce poder sobre o imaginário infantil, produzindo modelos a seguir e explorando a imagem da mulher através da erotização do corpo feminino. Resta aos pais que, diferente das crianças, já têm discernimento para escolher o que é mais adequado aos filhos resistirem ao apelo dos pequenos e impedi-los de refletir os desejos da indústria cultural.
Aos pais resta um verdadeiro desafio na tentativa de ensinar o consumo consciente com intuito de proteger seus filhos. Propagandas infantis, colegas na escola, novelas e diversos meios de comunicação consolidam um padrão de beleza erotizado do sexo feminino que independe de idade. A manipulação da criança é extremamente forte e difícil de esquivar-se. Um trabalho de reestruturação dos costumes compreendem modificação de certos hábitos para evitar exposição exacerbada dos jovens às imposições da sociedade até que tenham mais maturidade. Indepenedentemente do sexo, esse trabalho é importante para educar meninos que respeitem e não sexualizem a figura feminina e meninas que conheçam seu corpo e não vejam nele um objeto sexual.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Memórias de Porto Alegre

Nesta semana, na aula presencial do PEAD, tivemos a oportunidade de viajar no tempo, através de fotografias antigas de POA, fotos como estas que estou postando abaixo. Muitas vezes não nos damos conta de todas as mudanças que ocorrem em uma geração, não me refiro apenas às modificações na paisagem, mas principalmente às modificações que dizem respeito aos costumes e valores sociais, que vemos retratados e eternizados nestas fotografias.
Enchente de 1941
Na foto, ao fundo, o Mercado Público tomado pelas águas.

Praia do Riacho
Nome pelo qual era conhecido o Arroio Dilúvio.

Mercado Público


Bonde Partenon descendo a Borges de Medeiros. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A Maquinaria Escolar x Escola Atual


Começo esta reflexão citando o mestre Paulo Freire: “Se a educação sozinha não transforma a sociedade,sem ela tampouco a sociedade muda”
O texto “A Maquinaria Escolar” foi a proposta de leitura da disciplina Escolarização, Espaço e Tempo na Perspectiva Histórica. É triste pensar que as escolas não mudaram muito desde sua concepção, transcorridos mais de dois séculos a configuração semelhante a fábricas se mantém; o apito que indica a hora de entrada e saída; a compartimentalização do saber; a disposição das classes denunciam a manutenção dos conceitos que estão na origem da instituição. Não se contesta a importância da escola na sociedade, porém o mundo mudou, a clientela da escola mudou, o acesso a informação mudou, somente a escola se manteve no estática. Desta forma não é possível dar conta de educar e preparar crianças e adolescentes para o mundo. A escola precisa se renovar, mas as mudanças devem ser profundas e estruturais . O Brasil é um país rico, com grande potencial de desenvolvimento, mas continua entre os países com piores índices no que se refere a educação. Precisamos parar com os discursos vazios e encarar esta luta pela qualidade de ensino e pela valorização dos profissionais da educação.

Vivenciando a Alfabetização


Aula maravilhosa com a Professora Annamaria Rangel, atividade provocadora que nos colocou no lugar das crianças que estão iniciando sua alfabetização – insegurança, dificuldade de copiar, estranhamento com o alfabeto árabe- foram algumas das dificuldades e sentimentos que tivemos de lidar. Sentimentos que permeiam a alfabetização e que, enquanto professores, acabamos negligenciando. Além do aprendizado a aula nos valeu a reflexão de nossa prática diária; a necessidade de estabelecermos uma empatia com nossos pequenos estudantes que estão descobrindo o mundo da leitura e da escrita, buscando atividades significativas que realmente agreguem conhecimento.


Dialogando com a Imaginação


Primeira aula presencial do PEAD, somos convidadas a falar sobre infância. Ouvindo o relato das colegas lembramos de coisas que estavam adormecidas; experiências, brincadeiras, vivências que nos constituíram, que forjaram os adultos que nos tornamos. Nesta aula debatemos sobre o vídeo “Lilinho Panvel” e nos foi sugerido o documentário “Território do brincar”, Não é possível deixar de refletir e comparar os vídeos no que concerne a capacidade e a força que a criança tem de 'digerir' o cotidiano através do brincar. O adulto presta um desserviço à criança quando quer poupá-la da vida real. É a vivência diária, as tristezas, as contrariedades e as frustrações que nos ensinam a lidar com o mundo. A criança ganha autonomia ao brincar, aprende e cresce, por isso a escola deve aproveitar esse encantamento e ensinar de forma lúdica,

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Educação Numa Sociedade Pós-Moderna

Tenho refletido bastante sobre como educar crianças que são fruto dessa sociedade em constante transformação, sem referências estáveis, pois até mesmo o núcleo familiar está em constante mutação. Não é difícil de entender que a mídia ocupe espaço e se estabeleça no imaginário infantil criando uma ideia de felicidade pelo consumo. É no objeto de consumo que se coloca a satisfação, o preenchimento de um vazio deixado pelas certezas de outrora. Nada mais é constante, nada é para sempre, nem a esperança no futuro. Penso que talvez estejamos num ponto de desconstrução de valores e verdades universais, no momento fisgados por uma sociedade consumista, porém acredito que possamos achar um rumo, novas verdades e novos valores no que nos resta de humanidade.