domingo, 26 de novembro de 2017

PESQUISAR A ESCOLA

Estudamos a história para entender o percurso da humanidade através do tempo, investigando o que os homens produziram, pensaram e expressaram enquanto seres sociais. Desta forma o conhecimento histórico possibilita a compreensão do homem enquanto constrói seu tempo. Analogamente, quando pesquisamos a escola tentamos compreender como os atores envolvidos na comunidade escolar interagem e reproduzem sua cultura. Nesta busca nos valemos de fontes escritas, orais e iconográficas para compreendermos as condições de existência de uma determinada comunidade.
 Quando nascemos nosso primeiro contato é com a família, da qual recebemos, além dos cuidados físicos e afetivos, crenças, valores e atitudes que influenciarão nosso desenvolvimento psicossocial. Num segundo momento entraremos em contato com a escola, na qual nossas referências de comportamento familiar sofrerão interferência e aonde iremos nos deparar com uma variedade de outras culturas. Desta forma, enquanto seres particulares e sociais nos desenvolvemos em um contexto multicultural, em que temos regras, padrões, crenças, valores, identidades muito diferenciadas. Assim, a cultura torna-se um processo de “intercâmbio” entre indivíduos. A cultura, não é algo isolado, mas um conjunto de comportamentos aprendidos que se refere ao modo de vida total de um grupo humano, compreendendo seus elementos naturais, não naturais e ideológicos. Segundo Ramos (2003, p. 265), “as culturas penetram o indivíduo [...] da mesma forma que as instituições sociais determinam estruturas psicológicas [...] o homem pensa e age dentro do seu ciclo de cultura”. Portanto, pesquisar a escola é tentar compreender a complexidade das relações e das condições de existência dos indivíduos que compõem a comunidade escolar.



COMPREENSÃO E ÉTICA

Lendo os textos propostos e fazendo o trabalho do Seminário Integrador lembrei-me de um fato ocorrido em 2009 quando fiz vestibular para matemática. Estava aguardando para entregar os documentos e fazer a matrícula quando percebi que alguns dos colegas que aguardavam serem atendidos estavam promovendo uma "caça às bruxas", questionando a todos para descobrirem quem eram os cotistas. Ouvi comentários bastante preconceituosos por parte deles, não sei por que não me questionaram, talvez pensassem que eu era mãe de algum dos alunos e não uma futura colega. Embora não fosse cotista, fiquei apreensiva pensando o que aconteceria quando alguém se declarasse, na dúvida de até onde seriam capazes de ir com aquela atitude. Enquanto estive ali ninguém se apresentou como cotista, talvez por medo de represálias. Edgar Morin, nos "Sete Saberes" que a escola deveria produzir,  propõe no sexto e sétimo saberes o ensino da compreensão e da  ética, que podemos traduzir no ditado mais popular - "Não deseje para o outro aquilo que não quer para você"- ditado que parece simples, mas que envolve uma complexidade de valores e "verdades" que cada indivíduo carrega consigo. A lei das cotas foi e continua a ser bastante polêmica, mesmo alguns professores das universidades desvalorizam os alunos cotistas e ajudam na manutenção do preconceito. As pessoas, em geral, gostam de usar sua história de vida para se comparar com o outro, partem do pressuposto que se conseguiram vencer as adversidades a que foram expostas, então qualquer um pode, aquele que não consegue é porque não se esforça ou não tem interesse. Muitas vezes ouço este discurso dos professores na escola, mas a verdade é que não podemos medir dificuldades, sofrimentos ou adversidades. Cada pessoa tem uma história e é fácil julgar o outro do lugar onde me encontro. Vivemos em um país de enormes diferenças sociais.  Como afirma Hélio Jaguaribe em seu artigo "No limiar do século 21":
 “Num país com 190 milhões de habitantes, um terço da população dispõe de condições de educação e vida comparáveis às de um país europeu. Outro terço, entretanto, se situa num nível extremamente modesto, comparável aos mais pobres padrões afro-asiáticos. O terço intermediário se aproxima mais do inferior que do superior”.
A maioria dos alunos da escola pública pertence ao terço comparável com os padrões afro-asiáticos e convivem diariamente com o medo, a insegurança e o preconceito. Quem sou eu para dizer do outro o que ele pode ou não? Precisamos abandonar nossa arrogância, enquanto educadores, e acolher sem julgamentos, aprender com o outro, e, como propõe Morin, ensinar a compreensão e ética para que cada um possa buscar seu lugar no mundo conquistando a cidadania a que todos temos direito.   

domingo, 12 de novembro de 2017

COMUNIDADES INVISÍVEIS

A comunidade em que está inserida a escola na qual leciono é marcada pela pobreza, violência e disputa das facções de traficantes de drogas. Destaco especialmente as dificuldades enfrentadas pelos alunos que são provenientes de uma ocupação por eles denominada de “vilinha”. Muitas vezes, os alunos precisam se ausentar ou mesmo se transferir de escola devido às disputas por pontos de drogas ou por perseguições resultantes do envolvimento das famílias com o tráfico. As crianças são alvos fáceis dos traficantes, sendo comumente recrutadas para trabalhar como “aviãozinho” ou como “olheiros” nas principais vias de acesso à vila. Nascem reféns da violência e da insegurança, crescem numa comunidade desprovida de condições básicas de sobrevivência, sem luz, água encanada ou saneamento. As casas são construções precárias que não oferecem o mínimo conforto ou segurança. As famílias são desestruturadas e, a maioria, já perdeu algum parente, vítima de assassinato ou de doenças como a AIDS. As crianças não têm acesso a lazer, a livros ou brinquedos.
Embora na legislação brasileira (Constituição Federal e o Estatuto da Criança e do Adolescente) estejam previstos os direitos das crianças ao lazer, alimentação, segurança, proteção contra o trabalho infantil entre outros, na prática, como salienta Miguel Arroyo, o direito moderno é um campo onde se manifesta o pensamento abissal, ou seja, a inexistência dos desfavorecidos. Neste sentido, Santos aponta:

 “Onde este lado da linha é determinado por aquilo que conta como legal ou ilegal de acordo com o direito oficial... o legal e o ilegal são as duas únicas formas relevantes de existência perante a lei... esta dicotomia central deixa de fora todo um território social onde ela seria impensável como princípio organizador, isto é, o território sem lei, fora da lei, o território do ilegal” (SANTOS, 2009,p. 260).

Quando chegam à idade escolar, do ponto de vista do processo de alfabetização, estas crianças estão com 5 anos de atraso em relação às  da classe média e alta, por falta de contato com portadores de leitura, de materiais adequados ao desenvolvimento de habilidades motoras finas (tesoura, massinha de modelar, lápis de cor...) ou de um adulto letrado com tempo para ensiná-la coisas básicas como: cores, números ou letras.  São estes fatores conjugados que dificultam a alfabetização desses alunos no primeiro ano de escolarização e não sua incapacidade cognitiva. Emilia Ferreiro deixa clara a implicação desta defasagem imposta pelo meio social para a alfabetização das crianças ao chegarem à escola:
 “Há crianças que chegam à escola sabendo que a escrita serve para escrever coisas inteligentes, divertidas ou importantes. Essas são as que terminam de alfabetizar-se na escola, mas começaram a alfabetizar muito antes, através da possibilidade de entrar em contato, de interagir com a língua escrita. Há outras crianças que necessitam da escola para apropriar-se da escrita”. (Ferreiro, 1999, p.23).

Penso que a realidade desta comunidade ilustre com clareza as ideias defendidas por Arroyo em seu artigo “Ações coletivas e Conhecimento: outras pedagogias?”, pois a invisibilidade destas comunidades resulta no abandono das crianças, no desrespeito aos seus direitos, inclusive ao direito à infância. A trajetória escolar da maioria dos alunos expostos a esta realidade será duramente marcada pelo fracasso, pela evasão e pelo abandono da escola.