Lendo os
textos propostos e fazendo o trabalho do Seminário Integrador lembrei-me de um
fato ocorrido em 2009 quando fiz vestibular
para matemática. Estava aguardando para entregar os documentos e fazer a
matrícula quando percebi que alguns dos colegas que aguardavam serem atendidos
estavam promovendo uma "caça às bruxas", questionando a todos para
descobrirem quem eram os cotistas. Ouvi comentários bastante preconceituosos
por parte deles, não sei por que não me questionaram, talvez pensassem que eu
era mãe de algum dos alunos e não uma futura colega. Embora não fosse cotista,
fiquei apreensiva pensando o que aconteceria quando alguém se declarasse, na
dúvida de até onde seriam capazes de ir com aquela atitude. Enquanto estive ali
ninguém se apresentou como cotista, talvez por medo de represálias. Edgar
Morin, nos "Sete Saberes" que a escola deveria produzir, propõe
no sexto e sétimo saberes o ensino da compreensão e da ética, que podemos
traduzir no ditado mais popular - "Não deseje para o outro aquilo que não
quer para você"- ditado que parece simples, mas que envolve uma
complexidade de valores e "verdades" que cada indivíduo carrega
consigo. A lei das cotas foi e continua a ser bastante polêmica, mesmo
alguns professores das universidades desvalorizam os alunos cotistas e ajudam
na manutenção do preconceito. As pessoas, em geral, gostam de usar sua história
de vida para se comparar com o outro, partem do pressuposto que se conseguiram
vencer as adversidades a que foram expostas, então qualquer um pode, aquele que
não consegue é porque não se esforça ou não tem interesse. Muitas vezes ouço
este discurso dos professores na escola, mas a verdade é que não podemos medir
dificuldades, sofrimentos ou adversidades. Cada pessoa tem uma história e é fácil
julgar o outro do lugar onde me encontro. Vivemos em um país de enormes
diferenças sociais. Como afirma Hélio
Jaguaribe em seu artigo "No limiar do século 21":
“Num país com 190 milhões de habitantes, um terço da população
dispõe de condições de educação e vida comparáveis às de um país europeu. Outro
terço, entretanto, se situa num nível extremamente modesto, comparável aos mais
pobres padrões afro-asiáticos. O terço intermediário se aproxima mais do
inferior que do superior”.
A maioria dos alunos da escola
pública pertence ao terço comparável com os padrões afro-asiáticos e convivem
diariamente com o medo, a insegurança e o preconceito. Quem sou eu para dizer
do outro o que ele pode ou não? Precisamos abandonar nossa arrogância, enquanto
educadores, e acolher sem julgamentos, aprender com o outro, e, como propõe
Morin, ensinar a compreensão e ética para que cada um possa buscar seu lugar no
mundo conquistando a cidadania a que todos temos direito.