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domingo, 26 de novembro de 2017

COMPREENSÃO E ÉTICA

Lendo os textos propostos e fazendo o trabalho do Seminário Integrador lembrei-me de um fato ocorrido em 2009 quando fiz vestibular para matemática. Estava aguardando para entregar os documentos e fazer a matrícula quando percebi que alguns dos colegas que aguardavam serem atendidos estavam promovendo uma "caça às bruxas", questionando a todos para descobrirem quem eram os cotistas. Ouvi comentários bastante preconceituosos por parte deles, não sei por que não me questionaram, talvez pensassem que eu era mãe de algum dos alunos e não uma futura colega. Embora não fosse cotista, fiquei apreensiva pensando o que aconteceria quando alguém se declarasse, na dúvida de até onde seriam capazes de ir com aquela atitude. Enquanto estive ali ninguém se apresentou como cotista, talvez por medo de represálias. Edgar Morin, nos "Sete Saberes" que a escola deveria produzir,  propõe no sexto e sétimo saberes o ensino da compreensão e da  ética, que podemos traduzir no ditado mais popular - "Não deseje para o outro aquilo que não quer para você"- ditado que parece simples, mas que envolve uma complexidade de valores e "verdades" que cada indivíduo carrega consigo. A lei das cotas foi e continua a ser bastante polêmica, mesmo alguns professores das universidades desvalorizam os alunos cotistas e ajudam na manutenção do preconceito. As pessoas, em geral, gostam de usar sua história de vida para se comparar com o outro, partem do pressuposto que se conseguiram vencer as adversidades a que foram expostas, então qualquer um pode, aquele que não consegue é porque não se esforça ou não tem interesse. Muitas vezes ouço este discurso dos professores na escola, mas a verdade é que não podemos medir dificuldades, sofrimentos ou adversidades. Cada pessoa tem uma história e é fácil julgar o outro do lugar onde me encontro. Vivemos em um país de enormes diferenças sociais.  Como afirma Hélio Jaguaribe em seu artigo "No limiar do século 21":
 “Num país com 190 milhões de habitantes, um terço da população dispõe de condições de educação e vida comparáveis às de um país europeu. Outro terço, entretanto, se situa num nível extremamente modesto, comparável aos mais pobres padrões afro-asiáticos. O terço intermediário se aproxima mais do inferior que do superior”.
A maioria dos alunos da escola pública pertence ao terço comparável com os padrões afro-asiáticos e convivem diariamente com o medo, a insegurança e o preconceito. Quem sou eu para dizer do outro o que ele pode ou não? Precisamos abandonar nossa arrogância, enquanto educadores, e acolher sem julgamentos, aprender com o outro, e, como propõe Morin, ensinar a compreensão e ética para que cada um possa buscar seu lugar no mundo conquistando a cidadania a que todos temos direito.