segunda-feira, 24 de junho de 2019

PESQUISAR A ESCOLA PARA COMPREENDER A COMPLEXIDADE DAS RELAÇÕES


Estudamos a história para entender o percurso da humanidade através do tempo, investigando o que os homens produziram, pensaram e expressaram enquanto seres sociais. Desta forma o conhecimento histórico possibilita a compreensão do homem enquanto constrói seu tempo. Apropriarse da cultura é se instrumentalizar com aquilo que a humanidade produziu. Como afirma Leontiev (1978, p. 257):

O processo de apropriação do mundo dos objetos e    dos fenômenos    criados   pelos   homens   no   decurso   do desenvolvimento histórico da sociedade é o processo durante o qual teve lugar a formação, no indivíduo, de faculdades e de   funções   especificamente  humanas.   [...] O processo de apropriação efetuase no desenvolvimento de relações reais do sujeito com o mundo. Relações que não dependem nem do sujeito nem da sua consciência, mas são determinadas pelas condições históricas concretas, sociais, nas quais ele vive e pela  maneira   como   a    sua   vida   se   forma   nestas condições.  

Analogamente, quando pesquisamos a escola tentamos compreender como os atores envolvidos na comunidade escolar interagem e reproduzem sua cultura. Nesta busca nos valemos de fontes escritas, orais e iconográficas para compreendermos as condições de existência de uma determinada comunidade.
 Quando nascemos nosso primeiro contato é com a família, da qual recebemos, além dos cuidados físicos e afetivos, crenças, valores e atitudes que influenciarão nosso desenvolvimento psicossocial. Num segundo momento entraremos em contato com a escola, na qual nossas referências de comportamento familiar sofrerão interferência e aonde iremos nos deparar com uma variedade de outras culturas. Segundo Ramos (2003, p. 238):

O indivíduo dentro dos seus padrões sociais, vive em sociedade, como membro do grupo, como “pessoa”, como “socius”. A própria consciência da sua individualidade, ele a adquire como membro do grupo social, visto que é determinada pelas relações entre o “eu” e os “outros”, entre o grupo interno e o grupo externo.

        Entende-se  por grupos internos o grupo de família, da escola. São os grupos de igualdade de atitudes, de opiniões. Já os grupos externos correspondem a grupos no qual não pertencemos, como por exemplo, as famílias que passam nas ruas, que encontramos em clubes sociais e esportivos, etc
Desta forma, enquanto seres particulares e sociais  nos desenvolvemos em um contexto multicultural, em que temos regras, padrões, crenças, valores, identidades muito diferenciadas. Na concepção de modos de vida que caracterizam a comunidade, a cultura é definida como um sistema de signos e significados criados pelos grupos sociais. Ela se produz “através da interação social dos indivíduos, que elaboram seus modos de pensar e sentir, constroem seus valores, manejam suas identidades e diferenças e estabelecem suas rotinas”, como ressalta Isaura Botelho (2001, p.2).
Assim, a cultura torna-se um processo de “intercâmbio” entre indivíduos e não algo isolado, mas um conjunto de comportamentos aprendidos que se refere ao modo de vida total de um grupo humano, compreendendo seus elementos naturais, não naturais e ideológicos. Segundo Ramos (2003, p. 265), “as culturas penetram o indivíduo [...] da mesma forma que as instituições sociais determinam estruturas psicológicas [...] o homem pensa e age dentro do seu ciclo de cultura”.
Portanto, pesquisar a escola é tentar compreender a complexidade das relações e das condições de existência dos indivíduos que compõem a comunidade escolar.

BOTELHO, Isaura. Dimensões da cultura e políticas públicas. São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 15, n. 2, 2001.

LEONTIEV,   A.   N.  O   desenvolvimento   do   psiquismo.   Lisboa:  Livros Horizonte, 1978.

RAMOS, Arthur. Introdução à psicologia social. 4. ed. Santa Catarina: UFSC, 2003



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