Estudamos a história para entender o percurso da humanidade
através do tempo, investigando o que os homens produziram, pensaram e
expressaram enquanto seres sociais. Desta forma o conhecimento histórico
possibilita a compreensão do homem enquanto constrói seu tempo. Apropriar‐se
da cultura é se instrumentalizar com aquilo que a humanidade produziu. Como
afirma Leontiev (1978, p. 257):
O processo de apropriação do mundo dos objetos e
dos fenômenos
criados pelos homens no decurso do
desenvolvimento histórico da sociedade é o processo durante o qual teve lugar a
formação, no indivíduo, de faculdades e
de funções especificamente humanas. [...]
O processo de apropriação efetua‐se no desenvolvimento de relações reais do sujeito com
o mundo. Relações que não dependem nem do sujeito nem da sua consciência, mas
são determinadas pelas condições históricas concretas, sociais, nas quais ele
vive e
pela maneira como a
sua vida se forma nestas
condições.
Analogamente, quando pesquisamos a escola tentamos
compreender como os atores envolvidos na comunidade escolar interagem e
reproduzem sua cultura. Nesta busca nos valemos de fontes escritas, orais e
iconográficas para compreendermos as condições de existência de uma determinada
comunidade.
Quando nascemos nosso
primeiro contato é com a família, da qual recebemos, além dos cuidados físicos
e afetivos, crenças, valores e atitudes que influenciarão nosso desenvolvimento
psicossocial. Num segundo momento entraremos em contato com a escola, na qual
nossas referências de comportamento familiar sofrerão interferência e aonde
iremos nos deparar com uma variedade de outras culturas. Segundo Ramos (2003,
p. 238):
O indivíduo dentro dos seus padrões sociais, vive em
sociedade, como membro do grupo, como “pessoa”, como “socius”. A própria consciência
da sua individualidade, ele a adquire como membro do grupo social, visto que é
determinada pelas relações entre o “eu” e os “outros”, entre o grupo interno e
o grupo externo.
Entende-se por grupos internos o grupo de família, da
escola. São os grupos de igualdade de atitudes, de opiniões. Já os grupos
externos correspondem a grupos no qual não pertencemos, como por exemplo, as
famílias que passam nas ruas, que encontramos em clubes sociais e esportivos,
etc
Desta forma, enquanto seres particulares e sociais nos desenvolvemos em um contexto
multicultural, em que temos regras, padrões, crenças, valores, identidades
muito diferenciadas. Na concepção de modos de vida que caracterizam a comunidade,
a cultura é definida como um sistema de signos e significados criados pelos
grupos sociais. Ela se produz “através da interação social dos indivíduos, que
elaboram seus modos de pensar e sentir, constroem seus valores, manejam suas
identidades e diferenças e estabelecem suas rotinas”, como ressalta Isaura
Botelho (2001, p.2).
Assim, a cultura torna-se um processo de “intercâmbio” entre
indivíduos e não algo isolado, mas um conjunto de comportamentos aprendidos que
se refere ao modo de vida total de um grupo humano, compreendendo seus
elementos naturais, não naturais e ideológicos. Segundo Ramos (2003, p. 265),
“as culturas penetram o indivíduo [...] da mesma forma que as instituições
sociais determinam estruturas psicológicas [...] o homem pensa e age dentro do
seu ciclo de cultura”.
Portanto, pesquisar a escola é tentar compreender a
complexidade das relações e das condições de existência dos indivíduos que
compõem a comunidade escolar.
BOTELHO, Isaura. Dimensões da cultura e políticas públicas.
São Paulo em Perspectiva, São Paulo, v. 15, n. 2, 2001.
LEONTIEV, A. N. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros
Horizonte, 1978.
RAMOS, Arthur. Introdução à psicologia social. 4. ed. Santa
Catarina: UFSC, 2003
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