As duas principais concepções pedagógicas utilizadas nas
escolas de hoje são a tradicional e a construtivista. Segundo Moreto (2008, p.
17), o foco da escola tradicional poderia ser sintetizado da seguinte maneira:
“aquisição de conteúdos selecionados das diferentes ciências, tendo um critério
essencialmente acadêmico, com grande desvinculação das representações já
trazidas pelo aluno e de seu contexto social e político”.
Na concepção construtivista se verifica uma nova visão da
educação, preconizada pela perspectiva sócio-interacionista, que está representada
pela característica fundamental de interação que se estabelece entre professor,
aluno e conhecimento (MORETO, 2003, p. 101).
Nestas duas concepções encontramos formas de avaliação
alinhadas às crenças e fazeres pedagógicos que permeiam as duas visões de
educação. A avaliação é espaço de mediação, aproximação, diálogo entre formas
de ensino dos professores e percursos de aprendizagens dos alunos, servindo
para orientar o docente a ajustar seu fazer didático. Mas o fazer avaliativo e
a maneira de vivenciá-lo não dependem exclusivamente da atitude do professor,
são condicionados pela cultura institucional (SILVA, HOFFMANN, ESTEBAN, 2003,
p. 13).
Numa concepção tradicional da educação, o professor acredita
na transmissão de seus conhecimentos ao aluno, a quem por sua vez, cabe
assimilar os conteúdos e depois demonstrar suas aprendizagens em provas e testes.
Nesse modelo de ensino, quem demonstrou o que aprendeu é aprovado, quem não
conseguiu fazer isso é reprovado e, dessa forma, a missão do professor está
cumprida (MORETO, 2003, p. 111).
Segundo Rays
(2000), a avaliação é um instrumento de desenvolvimento e diagnóstico do
processo de ensino-aprendizagem com vistas a sua melhoria, por isso deve ser
formativa e não classificatória. Afinal, uma avaliação classificatória é
seletiva e não favorece o trabalho pedagógico do erro, enquanto avaliação
formativa é parte integrante do processo de ensino e seu valor pedagógico
reside no fato de favorecer a aprendizagem do aluno.
Dentro da proposta construtivista, uma ideia fundamental é
de que todo conhecimento constitui uma construção que o sujeito faz a partir
das interações com o mundo físico e social de seu contexto (MORETO, 2008, p. 39
[...] a nova orientação para a educação é
outra. Isso não significa que não se exige dos alunos que memorizem alguns
conhecimentos básicos nas diferentes áreas do saber. A memorização deve ser
significativa. Mas o novo foco está na preparação das condições para que o
aluno seja competente, isto é, seja capaz de estabelecer relações
significativas no universo simbólico das informações disponíveis. Estabelecer
relações, a partir da análise crítica de situações complexas, é gerenciar
informações na solução de problemas. Voltamos à função fundamental da escola:
preparar os gerentes das informações. (MORETTO, 2008, p. 76)
Refletindo
sobre o texto de Rays, leitura proposta na disciplina de Didática, inferi que
muitas mudanças na escola e na universidade se fazem necessárias para que se
supere a prática da avaliação classificatória. Na escola, por exemplo, nos
deparamos com duas realidades diversas em um mesmo ambiente. Nas séries
iniciais do ensino fundamental (1º ao 5º ano), o professor possui unidocência,
ou seja, trabalha com uma turma por turno tendo total condição de conhecer seu
aluno, de avaliá-lo durante o processo de aprendizagem e trabalhar a partir do
erro para que o aluno avance no seu processo de aprendizagem e na construção
dos seus conhecimentos.
Nas séries finais do
ensino fundamental e no ensino médio nos deparamos com uma realidade bem
diferente, pois os professores trabalham com diversas turmas, com um número
absurdo de alunos em um tempo limitado a uma média de três a quatro períodos de
quarenta e cinco minutos por semana. Por isso, as provas geralmente são
objetivas e a avaliação classificatória. Muitas vezes, o professor só vai
conhecer o aluno no final do ano letivo, o que é um entrave para uma avaliação
formativa.
Agora, se nos concentrarmos nas
universidades, principalmente nas disciplinas de exatas, encontramos a mesma
situação: professores dando aula em auditórios para turmas de sessenta ou mais
alunos. E esta situação é comum mesmo nas turmas de Licenciatura, nas quais o
discurso das aulas de didática não se concretiza na prática, por isso
constantemente me questiono acerca deste descompasso. Por certo, é função da
Universidade e dos cursos de Licenciatura apresentarem as teorias produzidas na
área da educação, mas também é preciso preparar o professor para enfrentar a
realidade. Desta forma, se abriria espaço para discussão e para produção de
propostas viáveis já na academia, que serviria de espaço de experimentação para
que se fuja da máxima: “faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço”.
MORETO,
Vasco Pedro. Prova: um momento privilegiado de estudo, não um acerto de contas.
8. ed. Rio de Janeiro: Lamparina, 2008.
SILVA,
Janssen Felipe da; HOFFMANN, Jussara; ESTEBAN, Maria Teresa. Práticas
avaliativas e aprendizagens significativas: em diferentes áreas do currículo.
Porto Alegre: Mediação, 2003.
https://hermanncarmem23.blogspot.com/2018/06/faca-o-que-eu-digo-mas-nao-faca-o-que.html
/ Junho 2018
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