O perfil dos meus alunos da
EJA - composto majoritariamente por alunos jovens, entre 15 e 25 anos - me
levou a inferir que eles dominavam o uso das tecnologias digitais. Entretanto, após
uma aula no laboratório de informática percebi que embora muitos estivessem
permanentemente conectados, isto não significava que soubessem trabalhar em
ferramentas Office ou utilizar a internet para pesquisar. Muitos dos meus
alunos retornaram à escola porque perceberam que sem formação não conseguiriam
boas oportunidades de trabalho. Outros, ainda, retornaram aos estudos por exigência
das empresas em que trabalham. Entretanto, a escola pode oferecer mais do que
um diploma, a escola pode e deve oferecer acesso às tecnologias digitais. A
influência das tecnologias na sociedade é um fato que não pode ser ignorado.
Práticas sociais, relações comerciais e a educação são cada vez mais orientadas
por e para as tecnologias de informação e comunicação (TIC). Neste contexto, as
pessoas devem estar adaptadas aos padrões de uso dos recursos tecnológicos,
principalmente no tocante ao exercício profissional. Para tal, é essencial
adquirir habilidades e consolidar competências necessárias à utilização de
computadores, redes e outros dispositivos telemáticos em diferentes situações.
Tais habilidades estão associadas à aplicação dos recursos tecnológicos, ao uso
das diversas mídias de comunicação, à busca de informação e à solução de
problemas com o auxilio da tecnologia (Joly, 2004; Leu, Mallette, Karchmer
& Kara- Soteriou, 2005).
Conforme a Secretaria
Municipal de Educação de Belo Horizonte (1995, p. 8):
“Os jovens e adultos não são
discriminados no trabalho e na cidadania só por serem iletrados ou não
dominarem os saberes básicos, mas também por não dominarem articuladamente o
conjunto dos saberes e competências próprios da vida adulta, ou requeridos para
a inserção “adulta” na sociedade, por exemplo: saber captar informação
selecioná-la e elaborá-la é tão central hoje para a vivência quanto as
clássicas habilidades de leitura e escrita.”
Nesta perspectiva, o
professor da EJA tem o desafio de orientar sua prática pedagógica para inclusão
digital tanto dos alunos considerados “imigrantes” quanto dos “nativos”
digitais. Segundo Prensky (2001 e 2006 apud DEMO, 2010): (...) a criança - que
é “nativa”, enquanto nós, adultos, somos “imigrantes”, [a criança] ao
deparar-se com o computador, lida com ele sem saber ler, não precisando,
ademais, de curso específico; ao contrário, fica aborrecida quando os pais
(adultos) persistem em lhes dar “instruções”. (p. 54).
Ao orientar os alunos na
busca e seleção de informações, incentivando-os a utilizar a internet como
ferramenta de ensino, o professor está formando alunos com autonomia para gerenciar seus próprios
estudos, criando base para uma educação continuada. Além disto, a história dos
alunos da EJA torna evidente que ao utilizar-se das mesmas práticas do ensino
regular o professor estará apenas contribuindo para perpetuar o fracasso e
repetindo os motivos que levaram muitos alunos à evasão escolar. A dificuldade
de adequação dos jovens a um ensino tradicional requer que o professor busque
uma nova abordagem que possibilite resgatar estes indivíduos mudando sua
história e renovando suas expectativas em relação à educação.
É preciso que o educador
respeite a trajetória de seus alunos valorizando seus saberes direcionando sua
prática para o desenvolvimento de competências que façam sentido e que agreguem
valor a este público que deseja uma oportunidade no mercado de trabalho.
Segundo PRENSKY (2011):
“Há pressões forçando os professores
novos a adotar métodos antigos. Nós precisamos fazer um grande esforço de
mudança. Primeiro, mudar a forma como nós ensinamos --nossas pedagogias.
Depois, mudar a tecnologia que nos dá suporte. Finalmente, mudar o que nós
ensinamos --nosso currículo-- para estarmos em acordo com o contexto e as
necessidades do século 21”.
Utilizar as tecnologias digitais
nas aulas de Ciências está sendo um desafio, principalmente pela falta de
estrutura e equipamentos. A quantidade de computadores funcionando é
insuficiente para atender a demanda da turma, muitas vezes não é possível acessar
a internet e é preciso adaptar o planejamento na última hora. Na nossa escola,
é o professor que precisa dar conta, sozinho, de todo processo: abrir a sala,
ligar os computadores, assessorar os alunos, desligar tudo e organizar a sala.
Não há recursos humanos no laboratório e a manutenção dos computadores é feita
raramente.
A escola pública precisa de
investimento em tecnologia, em material didático atrativo, em espaços físicos
adequados e em recursos humanos capacitados e dignamente remunerados. Mas, enquanto
isto não acontece, não podemos ficar parados ou nos deixarmos contaminar pela
falta de perspectiva. O professor pode, apesar de todas as dificuldades que
enfrenta, oferecer uma educação de qualidade e, assim, fazer a diferença para os seus alunos e para as comunidades onde atua.
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