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sábado, 21 de outubro de 2017

RACISMO MASCARADO

            Em 2007, minha filha cursava a 5ª série em uma escola particular de Porto Alegre. Na sala dela havia um aluno negro. Este aluno e o Professor de Português costumavam trocar “ofensas”, mas como uma espécie de brincadeira, ironicamente. Numa ocasião, o aluno chamou o professor de gordo e ouviu dele a seguinte expressão: “neguinho de merda”. A turma toda riu e o fato não tomou proporções maiores, entretanto, até hoje, sempre que a turma se reúne relembram este fato, o que demonstra o impacto da situação sobre as crianças. O ocorrido ficou eternizado na memória de todos. O fato de terem achado graça revela que, embora com pouca idade, já eram capazes de inferir a mensagem por trás das palavras pronunciadas em tom de brincadeira. Conforme Fonseca:

"Os grupos sociais, quando riem de determinada piada, demonstram que estão aparentemente de acordo com suas mensagens, que elas encontram eco na sociedade; sua atitude manifesta consciência e assimilação, aludindo a uma relativa identificação entre a mensagem expressa por eles e a leitura de mundo que é feita pelo conjunto da sociedade." (Fonseca, 1994, p. 53).  

Podemos fazer diversas considerações em relação a este fato, primeiramente, não condiz com a postura de um educador entrar neste tipo de “jogo” com os alunos. O professor é o adulto e deve pautar suas relações em sala de aula pelo respeito mútuo. O professor nitidamente utilizou o termo “neguinho” de forma pejorativa, com intenção de ofender, embora num tom de brincadeira. O que isto nos revela das crenças e valores deste professor? O público era composto de crianças em fase de construção de seus valores, o que é um agravante. Além disso, a atitude do professor ficou impune, pois as crianças não tiveram voz para confrontá-lo ou denunciá-lo. A compreensão do racismo não pode ser desvinculada das relações de dominação presentes entre os grupos raciais na população brasileira. Segundo Silva:

"A relação complexa "entre raça, cor, posição social e nível educacional no Brasil está baseada em relações hierarquizadas e posicionamentos sociais sempre ambivalentes, dependentes de situações quotidianas e de contextos específicos" (Silva, M. L., 2007, p.165).

            Certamente o professor impactou a todos, principalmente ao aluno que sofreu a ofensa, porque reforçou a questão do racismo e da imagem negativa do negro, socialmente construída. A exclusão começa desde a infância dentro das escolas com a desvalorização das características físicas do indivíduo o que influencia na sua formação identitária num período da vida em que o caráter esta sendo formado.