Na disciplina de Didática realizamos
um projeto com nossa turma, a partir de um livro infantil. Escolhi um livro da
coleção do “Mundinho” de Ingrid Biesemeyer Bellinghausen pelo seu caráter lúdico. Elza Santos (2011)
define a palavra “Lúdico” no contexto escolar como:
[...] tem o caráter de jogo,
brinquedo, brincadeira e divertimento. Brincadeira refere-se basicamente à ação
de brincar, à espontaneidade de uma atividade não estruturada; brinquedo é
utilizado para designar o sentido de objeto de brincar, jogo é compreendido
como brincadeira que envolve regras e, divertimento como um entretenimento ou
distração. (2011, p. 24)
O livro chamado “As Brincadeiras do Mundinho” resgata
as brincadeiras de roda, as cantigas e outras brincadeiras muito comuns na
minha infância, como: passar anel, mímica, Cinco Marias, brincadeiras de roda
onde tínhamos que pagar uma “prenda” (no caso declamar um verso). Kishimoto
(1997) descreve as brincadeiras tradicionais infantis como folclóricas, uma
parte da cultura popular, e esta cultura vem sofrendo algumas mudanças devido
às transformações sociais e tecnológicas, sendo que a escola está incluída
nessas transformações.
Faria e
Salles (2007) apostam em uma proposta
pedagógica lúdica em que o brincar é visto como uma forma privilegiada de
fomentar a aquisição da função simbólica. Esta, no argumento das autoras,
“possibilita às crianças compreender o mundo e se expressar também através da
linguagem plástica e visual” (Faria; Salles, 2007, p. 76). A brincadeira é
tratada por elas como uma linguagem, assim como a escrita, a oralidade, as
artes visuais, a música e a corporeidade. A brincadeira, entendida como
linguagem, se configura por meio da “capacidade humana de imaginar, de
transformar uma coisa em outra, de dar significados diferentes a determinado
objeto ou ação” (Faria;
Salles, 2007, p. 76).
Após a leitura do livro e da conversa na rodinha para saber
quais as brincadeiras que as crianças já conheciam e já brincavam, propus uma
brincadeira de roda “Ciranda-Cirandinha”. Quando a canção termina uma criança
deve entrar na roda e declamar um verso, fiquei espantada ao perceber que as
crianças não conhecem versos. Refletindo sobre isto me lembrei de um texto que
li aqui no PEAD em que o autor dizia que antigamente a educação familiar era
mais construtivista, as crianças passavam mais tempo com os adultos e aprendiam
com os pais e avós. Conforme Vygotsky, o desenvolvimento cognitivo se dá pelo
processo de internalização da interação social com materiais fornecidos pela
cultura. Hoje em dia, com os pais e até os avós trabalhando a troca de saberes
dentro da família ficou prejudicada.
Quando eu era criança, minha avó materna e minha bisavó
costumavam me ensinar muitos destes versos, lembro que eu adorava e, ainda hoje,
lembro de vários. Atualmente as crianças ficam mais na companhia da televisão e do computador e acabam sendo
privados da presença dos adultos reduzindo a qualidade das trocas e até
prejudicando o seu desenvolvimento cognitivo e sua socialização. Neste sentido,
a escola passa a ter um papel preponderante no resgate da cultura e o professor
como mediador entre a criança e o mundo. Para Oliveira (1993, p.26) o conceito
de mediação, aqui referido, é como "o processo de intervenção de um
elemento intermediário numa relação; a relação deixa, então, de ser direta e
passa a ser mediada por esse elemento". A mediação é um ponto forte na
teoria de Vygotsky, pois considera que os processos psíquicos são mediados e
essa ação é auxiliada pelos instrumentos psicológicos – os signos – que estão
imersos e caracterizam a cultura humana.
Oliveira MK. Vygotsky:
aprendizado e desenvolvimento um processo sócio-histórico. São Paulo, 1993. [ Links ]
SANTOS, Elza C. Dimensão lúdica e arquitetura: o exemplo de
uma escola de educação infantil na cidade de Uberlândia. 2011. 363 f. Tese
(Doutorado em Ciências da Informação) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo,
Universidade de São Paulo, São Paulo.