sábado, 24 de março de 2018

ESCOLAS DEMOCRÁTICAS

Iniciamos o eixo VII do PEAD (parece mentira que passou tão rápido) e na aula presencial do Seminário Integrador fomos convidados a refletir sobre o curta “Escolas Democráticas”. A semelhança com a realidade das nossas escolas não é, certamente, uma coincidência, e sim uma crítica a um sistema educacional que não contempla as especificidades de um alunado que é produto da terceira revolução industrial, onde os meios de comunicação estão instrumentalizados pela informática e pela internet.
Nossas escolas trazem, ainda, muitas marcas de um modelo educacional centrado na figura do professor e dependente de uma organização rígida de tempo e espaço para que possa dar conta de um grande número de alunos por turma em salas pequenas e sem nenhuma infra-estrutura ou tecnologia. Por isso, não é difícil entender o porquê das permanências na organização do tempo, nas metodologias e nas relações que se estabelecem entre os atores da escola pública no Brasil.
A educação é uma eterna vítima do descaso dos governantes deste país, o discurso velho e amarrotado da falta de verbas é a justificativa para o sucateamento das escolas públicas. Sobre o professor recai, então, toda responsabilidade pela melhoria da qualidade do ensino. A sociedade quer uma revolução na escola, mas armam os professores com giz e mimeógrafo. É preciso se ter consciência que a verdadeira revolução na educação passa pela participação de toda sociedade, se a comunidade não conhece a realidade da escola, se não participa das decisões, também não se sente responsável por reivindicar e por cobrar providências dos órgãos públicos. A escola pública precisa de investimento em tecnologia, em material didático atrativo, em espaços físicos adequados e em recursos humanos capacitados e dignamente remunerados.
O que ainda sustentava a educação era a vontade dos professores, mas nossa classe acabou sendo contaminada pela falta de perspectiva e de esperança. Entretanto, ainda encontramos professores que realizam um milagre por dia na tentativa de fazer a diferença nas comunidades em que trabalham e na vida de seus alunos. São estes profissionais que me inspiram e que alimentam minha fé nas mudanças.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

TÁBUA DE SALVAÇÃO

Miguel Arroyo afirma que o padrão cognitivo e pedagógico tem operado como padrão de classificação social, étnica, racial, de gênero, de hierarquizações e bipolaridades dos coletivos humanos. Nesta lógica estabelece-se uma dicotomia entre os segregados do poder e da cultura e os civilizados, detentores do poder. A fala de Arroyo é provocativa no sentido de que sempre pensamos a escola como uma ponte, uma tábua de salvação ou um meio confiável de mudança da condição social. Segundo Arroyo:

“A visão dos Outros como coletivos à margem tem sido cara à pedagogia e às políticas sócio-educativas. A empreitada civilizatória, a escola e até as pedagogias libertadoras carregam essa identidade: oferecer percursos, passagens para sair da ignorância, da incultura, da tradição pré-política, da pobreza para a civilização, a cultura, a consciência política, o progresso, a ascensão social... Uma imagem incrustada em nossa cultura política, pedagógica, civilizatória dos marginais.”

Talvez, por isso a avaliação escolar esteja tão ligada ao mérito do esforço pessoal e uma trajetória escolar bem sucedida se traduza na conquista individual de uma posição social privilegiada condizente com a mais pura  lógica capitalista, abandonando a condição marginal e desfavorecida.
A mudança do coletivo é incompatível com os moldes da escola atual porque estruturalmente ela não oferece espaço à construção de uma consciência social que mobilize e empodere as comunidades na busca de visibilidade as suas necessidades e ao descaso com as condições subumanas a que estão submetidos. Boaventura de Sousa Santos (2009) aponta polarizações mais radicais para entendermos a conformação dos desfavorecidos:
“ O pensamento moderno (poderíamos incluir a moderna pedagogia) opera em um sistema de distinções visíveis e invisíveis estabelecidas através de linhas radicais que dividem a realidade em dois universos distintos, irreconciliáveis: o universo “deste lado da linha” e o universo “do outro lado da linha”.

A escola pode ter um papel, não de ponte entre os desfavorecidos e os privilegiados, mas de local afirmação identitária dessas comunidades através da valorização de suas  produções culturais.


MÉTODO CLÍNICO

               A Epistemologia Genética é uma teoria criada pelo biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), que estuda a gênese ou origem do conhecimento humano. Esta teoria estabelece que o conhecimento não vem pronto com a pessoa (apriorismo), nem é imposto pelo meio (empirismo), resulta sim de um processo interacional entre as condições internas do sujeito e do meio (construtivismo). Para realizar sua pesquisa, Piaget, desenvolveu um método, conhecido como “método clínico”, para acompanhar o pensamento das crianças e entendê-lo. Para entender melhor o método aplicamos com nossos alunos. Foi uma experiência muito interessante, observar o raciocínio das crianças através das respostas aos nossos questionamentos. A apresentação dos vídeos na aula presencial foi um momento de aprendizagem e troca. 

TIC's NA EJA

Sexta-feira passada realizamos na escola, com os alunos da EJA,  nossa primeira Feira de Ciências, resultado dos projetos de aprendizagem do semestre. Os trabalhos foram bem diversificados e a apresentação um desafio, pois a maioria dos alunos tem vergonha de falar em público. A proposta era utilizar a tecnologia na pesquisa, elaboração e apresentação dos trabalhos. O público da EJA, atualmente, é bastante heterogêneo. Uma parte composta por alunos oriundos do ensino regular e com idade entre quinze e dezoito anos e outra parte constituída por alunos mais velhos que trabalham ou que já estão aposentados, mas desejam completar sua escolarização. Conversando com os alunos percebemos que muitos não tinham acesso ou não utilizavam as tecnologias de informação (TIC), computadores ou celulares. Os alunos mais jovens utilizavam o computador ou celular apenas para entrar nas redes sociais. Por isso inserimos no nosso planejamento um tempo para utilização das tecnologias como ferramenta para pesquisa e apresentação dos trabalhos. Foi um grande desafio, pois os alunos mais velhos não sabiam nem ao menos ligar o computador, embora estivessem muito motivados a aprender. Promover a inclusão digital dos alunos da EJA é de certa forma dar-lhes autonomia para aprender, pois mesmo os alunos mais jovens e que estão habituados a lidar com computadores e celulares não sabiam pesquisar ou utilizar programas como o Word, PowerPoint, Excel, entre outros. Para PRENSKY (2011:
 (...) se os professores quiserem ajudar os alunos do século 21 a aprender. Alguns acham que a pedagogia vai mudar automaticamente, assim que os "nativos digitais" se tornarem professores. Eu discordo. Há pressões forçando os professores novos a adotar métodos antigos. Nós precisamos fazer um grande esforço de mudança. Primeiro, mudar a forma como nós ensinamos --nossas pedagogias. Depois, mudar a tecnologia que nos dá suporte. Finalmente, mudar o que nós ensinamos --nosso currículo-- para estarmos em acordo com o contexto e as necessidades do século 21.”

O nível dos trabalhos apresentados foi a confirmação que o esforço valeu a pena.


sábado, 2 de dezembro de 2017

CONDUTA ÉTICA

O professor sempre foi uma figura importante na formação da nossa personalidade, afinal, quem nunca se inspirou em um professor ou o considerou um modelo a seguir? Na minha vida acadêmica tive o prazer de conhecer ótimos professores que influenciaram positivamente minha formação. Penso que como educadores temos uma grande responsabilidade, não só pela palavra dita, mas pelo exemplo. A relação aluno–professor perpassa todo o desenvolvimento da criança. No início da vida escolar as crianças tendem a transferir a figura de autoridade dos pais para os seus professores e a escola é um dos seus primeiros locais de aprendizado do convívio social. Mesmo na adolescência, quando os jovens tendem a questionar a autoridade, o professor se constitui uma referência. Por estas razões, tem a capacidade de contribuir não só na formação acadêmica, mas também na construção dos valores. Através de sua postura e conduta diante das situações, ensina solidariedade, empatia e senso de alteridade. Como ressalta Márcia Tiburi, a sociedade não vai mudar de cima para baixo, logo os educadores têm grande responsabilidade na potencialização destas mudanças, formando indivíduos que pautem sua conduta social na ética, no diálogo e no respeito às diferenças. 

domingo, 26 de novembro de 2017

PESQUISAR A ESCOLA

Estudamos a história para entender o percurso da humanidade através do tempo, investigando o que os homens produziram, pensaram e expressaram enquanto seres sociais. Desta forma o conhecimento histórico possibilita a compreensão do homem enquanto constrói seu tempo. Analogamente, quando pesquisamos a escola tentamos compreender como os atores envolvidos na comunidade escolar interagem e reproduzem sua cultura. Nesta busca nos valemos de fontes escritas, orais e iconográficas para compreendermos as condições de existência de uma determinada comunidade.
 Quando nascemos nosso primeiro contato é com a família, da qual recebemos, além dos cuidados físicos e afetivos, crenças, valores e atitudes que influenciarão nosso desenvolvimento psicossocial. Num segundo momento entraremos em contato com a escola, na qual nossas referências de comportamento familiar sofrerão interferência e aonde iremos nos deparar com uma variedade de outras culturas. Desta forma, enquanto seres particulares e sociais nos desenvolvemos em um contexto multicultural, em que temos regras, padrões, crenças, valores, identidades muito diferenciadas. Assim, a cultura torna-se um processo de “intercâmbio” entre indivíduos. A cultura, não é algo isolado, mas um conjunto de comportamentos aprendidos que se refere ao modo de vida total de um grupo humano, compreendendo seus elementos naturais, não naturais e ideológicos. Segundo Ramos (2003, p. 265), “as culturas penetram o indivíduo [...] da mesma forma que as instituições sociais determinam estruturas psicológicas [...] o homem pensa e age dentro do seu ciclo de cultura”. Portanto, pesquisar a escola é tentar compreender a complexidade das relações e das condições de existência dos indivíduos que compõem a comunidade escolar.



COMPREENSÃO E ÉTICA

Lendo os textos propostos e fazendo o trabalho do Seminário Integrador lembrei-me de um fato ocorrido em 2009 quando fiz vestibular para matemática. Estava aguardando para entregar os documentos e fazer a matrícula quando percebi que alguns dos colegas que aguardavam serem atendidos estavam promovendo uma "caça às bruxas", questionando a todos para descobrirem quem eram os cotistas. Ouvi comentários bastante preconceituosos por parte deles, não sei por que não me questionaram, talvez pensassem que eu era mãe de algum dos alunos e não uma futura colega. Embora não fosse cotista, fiquei apreensiva pensando o que aconteceria quando alguém se declarasse, na dúvida de até onde seriam capazes de ir com aquela atitude. Enquanto estive ali ninguém se apresentou como cotista, talvez por medo de represálias. Edgar Morin, nos "Sete Saberes" que a escola deveria produzir,  propõe no sexto e sétimo saberes o ensino da compreensão e da  ética, que podemos traduzir no ditado mais popular - "Não deseje para o outro aquilo que não quer para você"- ditado que parece simples, mas que envolve uma complexidade de valores e "verdades" que cada indivíduo carrega consigo. A lei das cotas foi e continua a ser bastante polêmica, mesmo alguns professores das universidades desvalorizam os alunos cotistas e ajudam na manutenção do preconceito. As pessoas, em geral, gostam de usar sua história de vida para se comparar com o outro, partem do pressuposto que se conseguiram vencer as adversidades a que foram expostas, então qualquer um pode, aquele que não consegue é porque não se esforça ou não tem interesse. Muitas vezes ouço este discurso dos professores na escola, mas a verdade é que não podemos medir dificuldades, sofrimentos ou adversidades. Cada pessoa tem uma história e é fácil julgar o outro do lugar onde me encontro. Vivemos em um país de enormes diferenças sociais.  Como afirma Hélio Jaguaribe em seu artigo "No limiar do século 21":
 “Num país com 190 milhões de habitantes, um terço da população dispõe de condições de educação e vida comparáveis às de um país europeu. Outro terço, entretanto, se situa num nível extremamente modesto, comparável aos mais pobres padrões afro-asiáticos. O terço intermediário se aproxima mais do inferior que do superior”.
A maioria dos alunos da escola pública pertence ao terço comparável com os padrões afro-asiáticos e convivem diariamente com o medo, a insegurança e o preconceito. Quem sou eu para dizer do outro o que ele pode ou não? Precisamos abandonar nossa arrogância, enquanto educadores, e acolher sem julgamentos, aprender com o outro, e, como propõe Morin, ensinar a compreensão e ética para que cada um possa buscar seu lugar no mundo conquistando a cidadania a que todos temos direito.