domingo, 8 de abril de 2018

PEDAGOGIA DE COMÊNIO


Estudando os textos de Didática, relativos à Pedagogia de Comênio, percebemos que suas ideias e críticas ao ensino são surpreendentemente atuais e muito de sua didática está presente no cotidiano escolar, inclusive se observa nela indícios das teorias de Freud, Piaget e Vygotsky.
Comênio incentivava a experimentação, o uso dos sentidos como fator desencadeador da aprendizagem em detrimento de teorias abstratas, resguardadas as devidas proporções, este pensamento tem muita semelhança com  a Epistemologia Genética de Jean Piaget que diz que o conhecimento não se origina por pressão do meio, o que caracteriza o empirismo, nem por estruturas pré- determinadas, o que caracteriza o apriorismo. Para Piaget, a gênese das estruturas cognitivas é explicada pela construção – daí construtivismo – mediante interação radical entre sujeito e objeto.
Observa-se também nas ideias de Comênio, o que Freud chamou de transferência, ou seja,  Comênio atribui importância ao bom relacionamento entre professor e aluno como fundamento para a aprendizagem.
Percebe-se, ainda, semelhanças com a teoria de Vygotsky na valorização da troca de saberes entre os estudantes- Comênio recomenda que se  anime os alunos a ensinarem uns aos outro.
Promovendo uma crítica às escolas por incentivarem as crianças a decorar nomes e conceitos sem a devida compreensão, Comênio propunha que os alunos fizessem experiências por conta própria e aprendessem a partir das próprias observações e não somente repetindo o que outras pessoas disseram. É uma crítica aplicável a muitas escolas atuais que mantém resquícios da educação bancária- segundo Paulo Freire, na visão “bancária” da educação, o “saber” é uma doação dos que se julgam sábios aos que julgam nada saber.  
Na pedagogia de Comênio encontramos várias semelhanças com a dinâmica de uma sala de aula orientada pelo construtivismo: experimentação, ludicidade, troca de saberes, alternância do trabalho com descanso- através de conversa, brincadeira ou música-, valorização do relacionamento professor aluno e a apresentação dos conteúdos em progressão de dificuldade, tendo-se o cuidado de não tornar a aula entediante e procurando-se manter o interesse e motivação dos alunos. Estas são ações que os  professores que se orientam pela teoria construtivista consideram em seu planejamento diário objetivando que os alunos aprendam de forma contextualizada e significativa.

  


segunda-feira, 2 de abril de 2018

INCLUSÃO DIGITAL NA EJA

O perfil dos meus alunos da EJA - composto majoritariamente por alunos jovens, entre 15 e 25 anos - me levou a inferir que eles dominavam o uso das tecnologias digitais. Entretanto, após uma aula no laboratório de informática percebi que embora muitos estivessem permanentemente conectados, isto não significava que soubessem trabalhar em ferramentas Office ou utilizar a internet para pesquisar. Muitos dos meus alunos retornaram à escola porque perceberam que sem formação não conseguiriam boas oportunidades de trabalho. Outros, ainda, retornaram aos estudos por exigência das empresas em que trabalham. Entretanto, a escola pode oferecer mais do que um diploma, a escola pode e deve oferecer acesso às tecnologias digitais. A influência das tecnologias na sociedade é um fato que não pode ser ignorado. Práticas sociais, relações comerciais e a educação são cada vez mais orientadas por e para as tecnologias de informação e comunicação (TIC). Neste contexto, as pessoas devem estar adaptadas aos padrões de uso dos recursos tecnológicos, principalmente no tocante ao exercício profissional. Para tal, é essencial adquirir habilidades e consolidar competências necessárias à utilização de computadores, redes e outros dispositivos telemáticos em diferentes situações. Tais habilidades estão associadas à aplicação dos recursos tecnológicos, ao uso das diversas mídias de comunicação, à busca de informação e à solução de problemas com o auxilio da tecnologia (Joly, 2004; Leu, Mallette, Karchmer & Kara- Soteriou, 2005).
Conforme a Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte (1995, p. 8):
“Os jovens e adultos não são discriminados no trabalho e na cidadania só por serem iletrados ou não dominarem os saberes básicos, mas também por não dominarem articuladamente o conjunto dos saberes e competências próprios da vida adulta, ou requeridos para a inserção “adulta” na sociedade, por exemplo: saber captar informação selecioná-la e elaborá-la é tão central hoje para a vivência quanto as clássicas habilidades de leitura e escrita.”
Nesta perspectiva, o professor da EJA tem o desafio de orientar sua prática pedagógica para inclusão digital tanto dos alunos considerados “imigrantes” quanto dos “nativos” digitais. Segundo Prensky (2001 e 2006 apud DEMO, 2010): (...) a criança - que é “nativa”, enquanto nós, adultos, somos “imigrantes”, [a criança] ao deparar-se com o computador, lida com ele sem saber ler, não precisando, ademais, de curso específico; ao contrário, fica aborrecida quando os pais (adultos) persistem em lhes dar “instruções”. (p. 54).
Ao orientar os alunos na busca e seleção de informações, incentivando-os a utilizar a internet como ferramenta de ensino, o professor está formando alunos com  autonomia para gerenciar seus próprios estudos, criando base para uma educação continuada. Além disto, a história dos alunos da EJA torna evidente que ao utilizar-se das mesmas práticas do ensino regular o professor estará apenas contribuindo para perpetuar o fracasso e repetindo os motivos que levaram muitos alunos à evasão escolar. A dificuldade de adequação dos jovens a um ensino tradicional requer que o professor busque uma nova abordagem que possibilite resgatar estes indivíduos mudando sua história e renovando suas expectativas em relação à educação.
É preciso que o educador respeite a trajetória de seus alunos valorizando seus saberes direcionando sua prática para o desenvolvimento de competências que façam sentido e que agreguem valor a este público que deseja uma oportunidade no mercado de trabalho. Segundo PRENSKY (2011):
“Há pressões forçando os professores novos a adotar métodos antigos. Nós precisamos fazer um grande esforço de mudança. Primeiro, mudar a forma como nós ensinamos --nossas pedagogias. Depois, mudar a tecnologia que nos dá suporte. Finalmente, mudar o que nós ensinamos --nosso currículo-- para estarmos em acordo com o contexto e as necessidades do século 21”.
Utilizar as tecnologias digitais nas aulas de Ciências está sendo um desafio, principalmente pela falta de estrutura e equipamentos. A quantidade de computadores funcionando é insuficiente para atender a demanda da turma, muitas vezes não é possível acessar a internet e é preciso adaptar o planejamento na última hora. Na nossa escola, é o professor que precisa dar conta, sozinho, de todo processo: abrir a sala, ligar os computadores, assessorar os alunos, desligar tudo e organizar a sala. Não há recursos humanos no laboratório e a manutenção dos computadores é feita raramente.
A escola pública precisa de investimento em tecnologia, em material didático atrativo, em espaços físicos adequados e em recursos humanos capacitados e dignamente remunerados. Mas, enquanto isto não acontece, não podemos ficar parados ou nos deixarmos contaminar pela falta de perspectiva. O professor pode, apesar de todas as dificuldades que enfrenta, oferecer uma educação de qualidade e, assim, fazer a diferença para os seus alunos e para as comunidades onde atua.



sábado, 24 de março de 2018

ESCOLAS DEMOCRÁTICAS

Iniciamos o eixo VII do PEAD (parece mentira que passou tão rápido) e na aula presencial do Seminário Integrador fomos convidados a refletir sobre o curta “Escolas Democráticas”. A semelhança com a realidade das nossas escolas não é, certamente, uma coincidência, e sim uma crítica a um sistema educacional que não contempla as especificidades de um alunado que é produto da terceira revolução industrial, onde os meios de comunicação estão instrumentalizados pela informática e pela internet.
Nossas escolas trazem, ainda, muitas marcas de um modelo educacional centrado na figura do professor e dependente de uma organização rígida de tempo e espaço para que possa dar conta de um grande número de alunos por turma em salas pequenas e sem nenhuma infra-estrutura ou tecnologia. Por isso, não é difícil entender o porquê das permanências na organização do tempo, nas metodologias e nas relações que se estabelecem entre os atores da escola pública no Brasil.
A educação é uma eterna vítima do descaso dos governantes deste país, o discurso velho e amarrotado da falta de verbas é a justificativa para o sucateamento das escolas públicas. Sobre o professor recai, então, toda responsabilidade pela melhoria da qualidade do ensino. A sociedade quer uma revolução na escola, mas armam os professores com giz e mimeógrafo. É preciso se ter consciência que a verdadeira revolução na educação passa pela participação de toda sociedade, se a comunidade não conhece a realidade da escola, se não participa das decisões, também não se sente responsável por reivindicar e por cobrar providências dos órgãos públicos. A escola pública precisa de investimento em tecnologia, em material didático atrativo, em espaços físicos adequados e em recursos humanos capacitados e dignamente remunerados.
O que ainda sustentava a educação era a vontade dos professores, mas nossa classe acabou sendo contaminada pela falta de perspectiva e de esperança. Entretanto, ainda encontramos professores que realizam um milagre por dia na tentativa de fazer a diferença nas comunidades em que trabalham e na vida de seus alunos. São estes profissionais que me inspiram e que alimentam minha fé nas mudanças.


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

TÁBUA DE SALVAÇÃO

Miguel Arroyo afirma que o padrão cognitivo e pedagógico tem operado como padrão de classificação social, étnica, racial, de gênero, de hierarquizações e bipolaridades dos coletivos humanos. Nesta lógica estabelece-se uma dicotomia entre os segregados do poder e da cultura e os civilizados, detentores do poder. A fala de Arroyo é provocativa no sentido de que sempre pensamos a escola como uma ponte, uma tábua de salvação ou um meio confiável de mudança da condição social. Segundo Arroyo:

“A visão dos Outros como coletivos à margem tem sido cara à pedagogia e às políticas sócio-educativas. A empreitada civilizatória, a escola e até as pedagogias libertadoras carregam essa identidade: oferecer percursos, passagens para sair da ignorância, da incultura, da tradição pré-política, da pobreza para a civilização, a cultura, a consciência política, o progresso, a ascensão social... Uma imagem incrustada em nossa cultura política, pedagógica, civilizatória dos marginais.”

Talvez, por isso a avaliação escolar esteja tão ligada ao mérito do esforço pessoal e uma trajetória escolar bem sucedida se traduza na conquista individual de uma posição social privilegiada condizente com a mais pura  lógica capitalista, abandonando a condição marginal e desfavorecida.
A mudança do coletivo é incompatível com os moldes da escola atual porque estruturalmente ela não oferece espaço à construção de uma consciência social que mobilize e empodere as comunidades na busca de visibilidade as suas necessidades e ao descaso com as condições subumanas a que estão submetidos. Boaventura de Sousa Santos (2009) aponta polarizações mais radicais para entendermos a conformação dos desfavorecidos:
“ O pensamento moderno (poderíamos incluir a moderna pedagogia) opera em um sistema de distinções visíveis e invisíveis estabelecidas através de linhas radicais que dividem a realidade em dois universos distintos, irreconciliáveis: o universo “deste lado da linha” e o universo “do outro lado da linha”.

A escola pode ter um papel, não de ponte entre os desfavorecidos e os privilegiados, mas de local afirmação identitária dessas comunidades através da valorização de suas  produções culturais.


MÉTODO CLÍNICO

               A Epistemologia Genética é uma teoria criada pelo biólogo suíço Jean Piaget (1896-1980), que estuda a gênese ou origem do conhecimento humano. Esta teoria estabelece que o conhecimento não vem pronto com a pessoa (apriorismo), nem é imposto pelo meio (empirismo), resulta sim de um processo interacional entre as condições internas do sujeito e do meio (construtivismo). Para realizar sua pesquisa, Piaget, desenvolveu um método, conhecido como “método clínico”, para acompanhar o pensamento das crianças e entendê-lo. Para entender melhor o método aplicamos com nossos alunos. Foi uma experiência muito interessante, observar o raciocínio das crianças através das respostas aos nossos questionamentos. A apresentação dos vídeos na aula presencial foi um momento de aprendizagem e troca. 

TIC's NA EJA

Sexta-feira passada realizamos na escola, com os alunos da EJA,  nossa primeira Feira de Ciências, resultado dos projetos de aprendizagem do semestre. Os trabalhos foram bem diversificados e a apresentação um desafio, pois a maioria dos alunos tem vergonha de falar em público. A proposta era utilizar a tecnologia na pesquisa, elaboração e apresentação dos trabalhos. O público da EJA, atualmente, é bastante heterogêneo. Uma parte composta por alunos oriundos do ensino regular e com idade entre quinze e dezoito anos e outra parte constituída por alunos mais velhos que trabalham ou que já estão aposentados, mas desejam completar sua escolarização. Conversando com os alunos percebemos que muitos não tinham acesso ou não utilizavam as tecnologias de informação (TIC), computadores ou celulares. Os alunos mais jovens utilizavam o computador ou celular apenas para entrar nas redes sociais. Por isso inserimos no nosso planejamento um tempo para utilização das tecnologias como ferramenta para pesquisa e apresentação dos trabalhos. Foi um grande desafio, pois os alunos mais velhos não sabiam nem ao menos ligar o computador, embora estivessem muito motivados a aprender. Promover a inclusão digital dos alunos da EJA é de certa forma dar-lhes autonomia para aprender, pois mesmo os alunos mais jovens e que estão habituados a lidar com computadores e celulares não sabiam pesquisar ou utilizar programas como o Word, PowerPoint, Excel, entre outros. Para PRENSKY (2011:
 (...) se os professores quiserem ajudar os alunos do século 21 a aprender. Alguns acham que a pedagogia vai mudar automaticamente, assim que os "nativos digitais" se tornarem professores. Eu discordo. Há pressões forçando os professores novos a adotar métodos antigos. Nós precisamos fazer um grande esforço de mudança. Primeiro, mudar a forma como nós ensinamos --nossas pedagogias. Depois, mudar a tecnologia que nos dá suporte. Finalmente, mudar o que nós ensinamos --nosso currículo-- para estarmos em acordo com o contexto e as necessidades do século 21.”

O nível dos trabalhos apresentados foi a confirmação que o esforço valeu a pena.


sábado, 2 de dezembro de 2017

CONDUTA ÉTICA

O professor sempre foi uma figura importante na formação da nossa personalidade, afinal, quem nunca se inspirou em um professor ou o considerou um modelo a seguir? Na minha vida acadêmica tive o prazer de conhecer ótimos professores que influenciaram positivamente minha formação. Penso que como educadores temos uma grande responsabilidade, não só pela palavra dita, mas pelo exemplo. A relação aluno–professor perpassa todo o desenvolvimento da criança. No início da vida escolar as crianças tendem a transferir a figura de autoridade dos pais para os seus professores e a escola é um dos seus primeiros locais de aprendizado do convívio social. Mesmo na adolescência, quando os jovens tendem a questionar a autoridade, o professor se constitui uma referência. Por estas razões, tem a capacidade de contribuir não só na formação acadêmica, mas também na construção dos valores. Através de sua postura e conduta diante das situações, ensina solidariedade, empatia e senso de alteridade. Como ressalta Márcia Tiburi, a sociedade não vai mudar de cima para baixo, logo os educadores têm grande responsabilidade na potencialização destas mudanças, formando indivíduos que pautem sua conduta social na ética, no diálogo e no respeito às diferenças.