Revisitando o
blog encontrei o relato de uma atividade da disciplina de Educação de Jovens e
Adultos em que entrevistei dois alunos
da turma T4 da escola em que leciono à noite. Foram duas histórias de vida bem
diferentes, mas ambas culminando no abandono dos estudos. Estes dois casos
coincidentemente refletem as duas grandes razões para a evasão escolar: o
econômico e o cognitivo.
Muitas
crianças abandonam a escola para ajudar na renda familiar ou, algumas vezes,
para cuidar dos irmãos menores e liberando a mãe para buscar trabalho. Outras
crianças têm nas práticas escolares tradicionais a maior motivação para
abandonar a escola. Em ambos os casos o resultado é a perpetuação da pobreza e
da exclusão social. Neste sentido, a EJA tem duas funções que servem de resgate
para o seu público: a função reparadora
que deve ser vista, ao mesmo tempo, como uma oportunidade concreta de presença
de jovens e adultos na escola e uma alternativa viável em função das
especificidades socioculturais desses segmentos para os quais se espera uma
efetiva atuação das políticas sociais. É por isso que a EJA necessita ser
pensada como um modelo pedagógico próprio, a fim de criar situações pedagógicas
e satisfazer necessidades de aprendizagem de jovens e adultos; a
função equalizadora que visa garantir a equidade, forma pela qual se distribuem
os bens sociais, de modo a garantir uma redistribuição e alocação destes bens em
vista de mais igualdade, consideradas as situações específicas.
Por isso a EJA,
como modalidade de ensino, tem desafios, como: superar a evasão; promover
o investimento em formação continuada dos profissionais; desenvolver práticas
de ensino e aprendizagem - mediatizadas pela realidade e experiência - que
valorize e reconheça os conhecimentos prévios do seu público alvo; fortalecer
nos educandos seu direito ao exercício da cidadania e a inclusão social. Segundo Freire (1989,
p. 6), a liberdade “é a matriz que atribui
sentido a uma prática educativa que só pode alcançar efetividade e eficácia na
medida da participação livre e crítica dos educados”.
Embora os relatos
destes alunos se reportem a fatos ocorridos há 20 ou 30 anos atrás e a
legislação brasileira tenha evoluído no sentido de incluir um maior número de
crianças na escola, infelizmente esta realidade é recorrente. Se assim não
fosse, a EJA estaria com seus dias contados, pois não seria alimentada por
novos alunos que a cada dia trilham este mesmo caminho, empurrados por uma
sociedade que não os protege e que não fornece condições para que eles
ingressem na escola e lá permaneçam com a exclusiva preocupação de aprender e
concluir os estudos. Concentrar-se apenas em estudar não é a realidade para a
grande maioria das crianças brasileiras, que desde muito pequenas têm outras
demandas, precisam conviver com a violência, com a pobreza e com o abandono.
Estudar para elas não é prioridade porque não vislumbram um futuro, ou melhor, não
acreditam que a escola agregue valor ao seu presente, ao seu cotidiano.
Referências
Freire, P. (1989). Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra. [ Links ]